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A vida consiste em acolher os espinhos

Elizete Moura dos Santos, fsp (1)

Durante a era glacial, muitos animais morriam por causa do frio. Os porcos-espinhos juntavam-se em grupos, assim se agasalhavam e se protegiam mutuamente. Mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos, justamente os que forneciam calor. Por isso, tornavam a se afastar uns dos outros, mas morriam congelados. Urgentemente precisaram fazer uma escolha: desapareceriam da face da Terra ou aceitavam os espinhos do semelhante. Para sobreviver, decidiram voltar e ficar juntos.

Inspirado nos dilemas da socialização humana, o filósofo alemão Artur Schopenhauer (1788-1860), em poucas, mas instigantes palavras, ressalta a desafiante aventura que é a convivência em grupo. A parábola do porco- espinho se torna assim bastante conhecida.

Na relação entre os porcos-espinhos, dois movimentos foram importantes: a socialização e o desenvolvimento. Do latim socius, o primeiro movimento, remete-nos à noção de ser “companheiro”, “seguir, ir junto, acompanhar”; já o segundo, significa “rolar, fazer girar”, do latim volvere. Para seguir é preciso se envolver numa luta comum pela sobrevivência.

Os espinhos precisam ser aceitos - Freud, o criador da psicanálise, em seu texto sobre a Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), costumava se utilizar dessa parábola para explicar o constante movimento que os porcos-espinhos fizeram para aprender duramente a conviver. Embora a proximidade os ferisse, o calor os mantinha vivos e protegidos. Pois a essência da vida consiste em acolher os espinhos uns dos outros.

O desenvolver as habilidades próprias da convivência social, tornava a relação possível de ser suportada. Desse modo, o companheirismo era o que fazia a dinâmica da vida girar num diálogo comum e recíproco, mesmo em meio às dificuldades. Aprender a aproximar-se uns dos outros foi imprescindível para mantê-los vivos.

O reflexo da socialização é sinal de desenvolvimento – num percurso árduo e, por vezes, complexo surgem as adversidades geradas pelas inúmeras influências. O mistério do desenvolver-se humano perpassa não apenas pela força da hereditariedade, nem só pelo meio em que se vive, mas abrange o crescimento orgânico e a maturação neurofisiológica – componentes que se unem para integrar as travessias da vida, num espinhoso processo que se constrói no decorrer das relações humanas.

A dinâmica da vida, desde o seu início, vai se constituindo no seio de um pequeno grupo social que se chama família. Para as teorias psicológicas, o desenvolvimento humano implica os aspectos físico-motor, intelectual, afetivo- emocional e social. Um fazer que se solidifica na integração das habilidades humanas.

Pedagogos, filósofos e psicólogos, de diferentes abordagens, buscam compreender sobre o complexo desenvolvimento humano. No rigor de suas teorias um desafio se manifesta: a convivência social. O desenvolver-se da vida consiste em saber conviver com as diferenças.

Na filosofia da vida – a imagem e a linguagem que o outro é capaz de emitir vão muito além da simples compreensão. Não é apenas uma ligação propriamente biológica ou a pessoa que a princípio conheço no âmbito figurado das relações sociais, nele há um mistério e nada pode transpor sua alteridade.

Quando as relações “viram nó, deixam de serem laços”. Ao parafrasear o poeta Mário Quintana, podemos afirmar que os laços de humanidade se fortalecem pelo respeito às diversidades, contrário às rupturas sociais que fragilizam o desenvolvimento humano, impedindo que a subjetividade humana se enriqueça.

As etapas, os processos ou estágios da vida nada mais são do que a necessidade de lançar reflexões sobre o comportamento humano. Desenvolver-se para além dos próprios “espinhos” consiste em manter a beleza que se manifesta nas relações com o outro que em nada se assemelha ao eu.

A responsabilidade, o amor e a justiça pertencem aos seres que, mesmo feridos pelos espinhos da vida, conseguem compartilhar o melhor de si. A linguagem humana se torna plena quando se revela na essência de sua hospitalidade, assim como o afeto aquece e enobrece o coração humano.

(1) Elizete Santos, fsp - Membro da Pia Sociedade Filhas de São Paulo (Irmãs Paulinas); Licenciada em Filosofia; Psicóloga Clínica – CRPSP-06/177899; Especialista em Adolescência e Juventude; Associada ao Corpo Freudiano Escola de Psicanálise de João Pessoa/PB.