CINEMA: Christian Dunker, psicanalista e professor da USP, comenta o filme “Um método perigoso”

 

Abaixo segue um comentário de Anna Carolina Lementy e entrevista à Christian Dunker sobre o filme “UM MÉTODO PERIGOSO” .

Fonte: http://jezebel.uol.com.br/um-metodo-realmente-perigoso/

 

 

Um método realmente perigoso

31 mar, 2012 – 09:54 – por: Anna Carolina Lementy

Ok, vou ser bem fútil agora: que paciente da ala psiquiátrica não ficaria ainda mais louca tendo Michael Fassbender como médico? O homem que fez até o ar se agitar durante o Festival de Veneza. O cara que tem um “documento” tão grande que poderia ser um ator pornô. Pois bem, Fassbender deixou crescer um bigode (suspiros), colocou um par de óculos (mais suspiros) e foi dar vida a Carl Jung (aquele mesmo, o cara da psicologia), no filme Um método perigoso, que estreou ontem. Sua paciente, Sabina Spielrein (Keira Knightley, aquela linda), não aguentou. Contrariando princípios de sua época, deu um xaveco de mestre no doutor. No começo, ele resistiu. Acabou cedendo e traiu a mulher. Uma, duas, várias vezes. Anos a fio.

Ainda assim, Jung, discípulo de Freud (Viggo Mortensen), nunca teve coragem de assumir o que fez. Nem de parar de fazer — o que pode ser um problema, considerando que é meio complicado dormir com pacientes. Mas o novo filme de David Cronenberg (Senhores do crime, Marcas da violência, A mosca — cult obrigatório) vai muito além dessa transgressão. É um compilado de “momentos decisivos da constituição da psicanálise”, diz o psicanalista Christian Dunker, professor da Universidade de São Paulo. Por causa dele, podemos ser “testemunhas” do nascimento de algumas grandes teorias dessa ciência — algumas muito usadas ainda hoje. E apreciar o percurso de Sabina, que vai do surto à excelência acadêmica, dando boas ideias ao próprio Freud.

“O filme não é didático nem reverencial”, diz Christian, como tantos outros sobre grandes homens e grandes mulheres. “Também não é um filme-denúncia,” tipo Tropa de elite. “Não rima com O livro negro da psicanálise, nem quer mostrar os segredinhos sujos de Jung”. Também não ignora seus grandes momentos, como o teste de associação de palavras (que Jung usava para se aproximar dos sentimentos dos pacientes) ou o lago à beira do qual ele escreverá Memórias, sonhos, reflexões. “E não esconde sua vida com Emma (a esposa traída), em meio à insípida burguesia suíça”.

Como aponta o professor, não faltam os clássicos da controvérsia entre Freud e Jung (eles brigaram feio): as treze horas de conversa (isso que é DR), o desmaio de Freud, as cartas que os dois trocaram, o sonho que Freud se recusou a contar a Jung (por medo de perder sua autoridade ao narrar o sonho, Freud a perdeu definitivamente). E está lá também a improvável frase de Freud dita no porto de Boston: “eles não sabem que lhes trazemos a peste”. Os consultórios, o divã, os objetos, o veleiro… É tudo precisamente reproduzido.

E boa notícia: o filme não tem erros históricos grotescos. Pelo contrário, é bem fiel à realidade. Então, se você gosta de história ou de psicanálise ou de Sigmund Freud ou de Carl Jung, vá ver. Você vai gostar. E talvez “entenda” o filme (eu achei bem difícil não ficar perdida). Porém, se você apenas gosta de filmes, talvez precise de um guia prático para compreender direito o que foi aquilo. E ele está bem aqui.

(O professor Christian Dunker nos ajudou nessa tarefa, mostrando algumas coisas interessantes e explicando aqueles conceitos todos.)

1) Ok, parece que a Sabina descobriu um negócio chamado “pulsão de morte”. Que diabos é isso? E por que Sabina é tão importante?
Christian Dunker - No início da psicanálise, Freud acreditava que os sintomas da neurose e da psicose ocorriam por causa do conflito entre o eu e os valores morais. Algo como desejos socialmente aceitos versus desejos inconscientes, de natureza sexual, originados na infância e reprimidos (pelos nossos pais, provavelmente). “O complexo de Édipo”, por exemplo, sobre o qual você já ouviu falar, gira em torno dessa ideia. Mas não vamos nos alongar explicando que complexo seria esse, ok?

Porém, em 1920, Freud muda o foco do conflito fundamental. Sem abolir o que havia sido descoberto antes, ele considera a existência de fenômenos que resistem à lógica que opõe o sexual ao eu, como nossa compulsão por repetir experiências desagradáveis (quando sofremos um acidente ou uma situação de violência e depois disso não conseguimos parar de pensar no acontecido, sonhamos com aquela situação e não paramos de falar sobre isso com os outros). Essa paixão pela repetição, manifesta em muitos pacientes que se apegam a seu sofrimento, sugeriu a Freud a existência de uma força maior que a da sexualidade e a das interdições da cultura. Essa força é a pulsão de morte. A importância dessa força de destruição, presente no masoquismo, foi sugerida a Freud por Sabina, que sentia prazer ao apanhar (primeiro do pai, depois de Jung).


2) Você ficou com a impressão de que o filme pende para a defesa de Freud e aponta os defeitos de Jung? Será que os junguianos vão ficar bravos? Você ficaria, se fosse junguiano?
Christian Dunker - O filme aborda com sobriedade uma das rupturas mais importantes e marcantes da história intelectual do século XX. Normalmente, essa ruptura é atribuída à resistência de Jung em aceitar que todos os sintomas envolvem a participação decisiva da sexualidade. Para o suíço, o conceito de libido devia ser pensado como “a totalidade da energia psíquica”, e não apenas como sinônimo das disposições sexuais. Para demonstrar sua ideia, Jung recorre fortemente aos mitos, à história das religiões e aos símbolos.

O filme acerta ao mostrar Freud tolerante e, na verdade, incentivador das teorias sobre a telepatia, o místico e a espiritualidade. Desde que elas não transgridam as regras da demonstração científica.

A grande novidade é mostrar que essa diferença teórica, algumas vezes retratada como uma incompatibilidade entre temperamentos, está permeada por uma querela pessoal. Para Freud, o grande erro de Jung foi ocultar seu relacionamento com Sabina, e não propriamente ter sido e infiel a sua esposa. Contudo, havia um conflito de gerações, um conflito entre o “príncipe da psicanálise” e o “pai da psicanálise” — e isso o filme deixa transparecer claramente.

O filme não demoniza Jung, mas mostra a gravidade de seu conflito e sua pequena disposição a enfrentá-lo naquele momento. O fato de que ele manteve amantes ao longo da vida, inclusive ex-pacientes, soa irônico para alguém que defendeu a não prioridade do conflito sexual.

É possível que muitos junguianos fiquem irritados com Cronenberg. Não porque ele favorece Freud, um grande adversário, afinal, mas porque mostra Jung sendo derrotado por um adversário que ele mesmo considerava de menor envergadura. Tirando as oposições teóricas geniais, afastando Freud do centro do ciclone que tomou a vida de Jung, o que sobra é um mito prosaico, humano.Mas há um elemento que fica sugerido no filme: a profundidade do abismo no qual a ruptura com Freud o colocou. Dessa crise pessoal emergirá o grande autor no qual Jung se transformou. Ou seja, talvez ele precisasse disso para se tornar o que era. “É preciso fazer coisas imperdoáveis para que uma vida valha a pena”, mostra o filme.

3) Mas por que Cronenberg foi se meter a fazer um filme paradão? Sem sangue, sem experiências malucas e mafiosos russos? E sem moscas?
Christian Dunker – Cronenberg fez seus melhores trabalhos justamente sobre o problema da dissolução do eu: Videodrome (1983), A mosca (1986), Gêmeos: mórbida semelhança (1988), Naked lunch (1991) e Spider (2002). E o filme todo trata dessa dissolução, processo vivido por Sabina e apontado em sua poderosa ideia de que a verdadeira sexualidade pede a destruição do ego.

A dissolução do eu significa que ela não pode ser reconhecida como mulher, como esposa, como médica, como alguém diferente de uma filha. Muitos quadros se caracterizam por uma perturbação da lógica do reconhecimento (depressão, mania, histeria, obsessão). Outros tantos podem ser alinhados com os problemas gerados por algo exterior (no caso das fobias).O que caracteriza o quadro de Sabina é a combinação entre os dois tipos de funcionamento, com sintomas dos dois tipos.

Ilustra muito bem isso a recordação na qual o pai de Sabina fazia com que ela beijasse sua mão (reconhecendo sua autoridade) antes que a mesma mão paterna a espancasse (como um objeto).

Suas conquistas na esfera do reconhecimento, propiciadas pela liberação de seu desejo de estudar, tornar-se psiquiatra, depois psicanalista (para o horror de Jung), associada à maternidade e ao casamento, podem sugerir a imagem de uma Sabina pacificada. Mas até onde pude acompanhar, isso está longe de representar a mulher que era, sobretudo, uma amante do conflito, não de sua solução.

Jung é genial porque percebe que a espasmódica e enlouquecida Sabina tem o grão de ousadia necessário para se tornar psiquiatra. A “loucura” de Sabina é a causa eficiente do filme. Alerta para a insanidade das fronteiras e para a força criativa que acompanha a destruição da individualidade.

É condenável o envolvimento entre Sabina e Jung?
Hoje é indiscutível que certas coisas não devem acontecer entre pacientes e analistas, mas isso não significa existam papéis claros e distintos. Os riscos profissionais são inevitáveis, é por isso que somos profissionais do risco. Daí a pertinência do título Um método perigoso.

Por que mostrar Otto Gross no filme?
Otto era um psiquiatra delirante, viciado em cocaína, que acreditava que o mundo iria acabar se não conseguíssemos por em prática a liberação sexual e a crítica do patriarcalismo. Foi ele quem inspirou a descoberta da esquizofrenia (feita por Eugen Bleuler, médico de Sabina). Otto e Sabina esperam o mínimo dos que cuidam do sofrimento psíquico: tornar os pacientes aptos para a liberdade. Mas muita gente se esquece disso hoje em dia.

Categorias Artigos, Notas | Tags: | Publicado em abril 10, 2012

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